Pequenos grandes consumidores
Pequenos grandes consumidores

“Ocupar-se dos filhos não implica a quantidade de tempo. A qualidade da comunicação compensa a escassez de quantidade” (A. Naouri).

Estudos referem que apenas 6% dos pais portugueses brincam diariamente com os seus filhos, colocando assim Portugal no fim da tabela dos países da europa (fonte: telejornal). Numa época onde a mulher, com a sua integração no mundo laboral, reduziu o tempo de dedicação aos filhos e onde o homem teve de envolver-se na educação dos mesmos, a quantidade e a qualidade de tempo privilegiado nas relações entre pais e filhos – momentos de brincadeira - está longe de ser o desejável.

A troca de tempo e de atenção dos pais por prendas e caprichos dá-nos algumas chaves sobre crianças que estam sempre a pedir coisas materiais.

Se acrescentar-mos a isto a televisão, que cumpre muito frequentemente as funções de companheira durante horas, e dos os anúncios que procuram astuciosamete seduzir as crianças de modo a que estas acabam por acreditar que têm necessidade de ter os objectos anunciados, teremos um panorama completo sobre as causas do consumismo infantil.

Os pais cobrem essas necessidades irreais e, na verdade, acabam por contribuir para transmitir a ideia de utilizar os outros como meio de alcançar os seus fins. Não se está a procurar a correcta socialização da criança.

Para “não traumatizar”, os pais não introduzem o “não” na linguagem dos filhos. É importante que desde uma fase precoce, as crianças sejam acostumadas a não terem tudo o que pedem, mesmo que economicamente seja possível. As crianças devem avaliar as coisas, aprender a esperar, a desejar o que querem, a esforçar-se para conseguir o que anseiam, e, a não ficarem frustradas quando não podem obtê-lo. De outro modo, começam a não dar volta as coisas e acabam por desvalorizar as pessoas.

A sociedade consumista não ajuda a criança a frustrar a sua omnipotência infantil, mas alimenta-a com a sua oferta para cobrir as suas necessidades e desejos, a ser possivel de maneira imediata. As crianças não estão a aprender a esperar para atinguir um objectivo, o que querem têm de obtê-lo “já”, no momento.

Hoje, os quartos das crianças estão repletos dos mais recentes brinquedos. Não se deve mergulhar as crianças em brinquedos, porque, além de as tornar incapazes de apreciar o valor de cada um, proporcionamos-lhe ansiedade e a interiorização de um premanente consumo.

O melhor dos brinquedos são pais disponíveis para brincar, amigos, um lugar para poder brincar com plasticina ou tintas sem medo de sujar.

No Natal, por exemplo, onde se verifica o “corre corre” dos pais e familiares junto das lojas de brinquedos em busca da satisfação dos intermináveis pedidos na carta ao Pai Natal, é importante reforçar que não se deve comprar complusivamente, nem deixar-se guiar unicamente pelas crianças, pois estas sofrem a pressão da publicidade. Por isso, é necessário moderá-las, pôr-lhes limites, fazê-las compreender. 

É muito positivo fazê-las saber que há outras crianças que não têm brinquedos, como forma de semear a semente da solidariedade e de erradicar o egoísmo precoce.

A actividade lúdica é fundamental para o desenvolvimento global da criança. Os adultos têm de deixar que brinquem como querem e dotá-las, isso sim, de um ambiente seguro, e de amor.

O tempo e o carrinho não podem ser substituidos por nada.


Elsa Madeira
Mestre em Psicologia Clínica
Doutoranda em Psicologia Clínica
Membro fundador associado do ramo de psicanálise e de psicoterapia psicanalítica da AP
Psicóloga Especialista em Avaliação Psicológica na Ktree

2014-03-02
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