O impacto da separação dos pais nos filhos menores
O impacto da separação dos pais nos filhos menores

No âmbito da Psicologia Infantil é frequente os pais e os técnicos questionarem-se sobre o impacto que a separação do casal gera nos filhos, principalmente quando são crianças.

Durante muito tempo foi veiculada a ideia de que os pais deveriam manter-se juntos, mesmo quando a relação conjugal está bastante degradada, em benefício dos filhos. A ideia de que separação dos pais é um acontecimento potencialmente muito traumatizante para a criança, levou muitos casais a perpetuarem a relação conjugal até à autonomia completa dos filhos ou pelo menos a adiarem a separação durante vários anos. Ainda há pouco tempo, uma colega contava-me que tinha esperado 7 anos para se separar do marido porque considerava que o filho era demasiado novo para sofrer as consequências da ruptura da relação parental. Durante esses 7 anos, ela e o marido sabiam que a relação estava terminada e que viviam um embuste apenas para garantir a estabilidade psicológica do filho.

Mais recentemente foi veiculada a ideia inversa, a de que é preferível para as crianças que os pais se separem do que sujeitá-las a discussões e agressões frequentes entre o casal.

Acho que neste, como em muitos outros casos, não existem receitas exactas nem correctas. Haverá situações em que a manutenção da relação conjugal mesmo que intensamente degradada é melhor e corresponde ao desejo mais profundo da criança. Noutras situações a separação abre espaço para uma relação mais saudável com cada um dos pais e a criança recupera um sentimento de bem-estar e felicidade que lhe era impossível enquanto os pais se mantinham juntos. Contudo, talvez possamos reflectir sobre algumas reacções possíveis.

 A literatura e as investigações mais actuais são praticamente consensuais em afirmarem que a separação dos pais é habitualmente vivida com profundo desgosto e que a criança é obrigada perante a separação dos pais a se reorganizar internamente em torno do que se passa, muitas vezes, pela elaboração do luto num processo de colorido dominantemente depressivo.

Não pretendendo ser exaustiva, penso que é importante referir algumas particularidades do impacto da separação dos pais na criança:

A condição principal de uma separação bem-sucedida com impacto mínimo para a criança é a forma como os pais, cada um individualmente, consegue colocar o bem-estar da criança acima da sua relação de casal. O papel de pai e mãe deve continuar intacto, mesmo quando se dissolve o papel de marido e mulher.

 Quando a criança é muito pequena (até mais ou menos aos três anos) o impacto da separação dos pais pode ser bastante baixo desde que ambos os pais se mantenham atentos e próximos da criança. Nestas idades a criança ainda não tem uma compreensão muito elaborada da relação entre o pai e a mãe e a sua satisfação depende fundamentalmente do bem-estar individual dos pais e da atenção e carinho que estes lhe oferecem. O grande risco nestas idades é que o pai que não ficou com a guarda do filho se afaste e não desenvolva um contacto estreito com o filho, acompanhando-o com grande proximidade.

 Entre os 3 e os 6/7 anos é, talvez, a idade mais complicada para a criança enfrentar a separação dos seus pais. A criança já interiorizou e aprendeu a aceitar e a lidar com a relação entre os pais (mesmo quando a relação é má) e a separação é muitas vezes vivida como consequência da falta de amor de um dos pais por ele. A criança responsabiliza-se pela ruptura da relação e tem muita dificuldade em aceitar a saída e o afastamento de um dos pais. Sente-se abandonada, mal-amada e traída. Se os pais forem muito cuidadosos, falarem várias vezes com a criança, explicarem-lhe que não tem responsabilidade sobre o que está a acontecer, manterem os ritmos e os hábitos da criança e se ambos os pais se mostrarem satisfeitos com a decisão e tranquilos, as dificuldades da criança podem ser bastante amenizados.

A partir dos 7 anos até à adolescência as crianças já conseguem compreender melhor as motivações dos pais e responsabilizam-se menos pela separação; contudo vivem com muita tristeza a separação e muitas vezes acalentam para o resto da vida o desejo dos pais reatarem.


Ana Almeida

Diretora Clínica da Psicronos
Psicóloga Clínica
Psicoterapeuta Psicanalítica
Psicoterapeuta – Hipnose Clínica
Psicoterapeuta – EMDR
Mestre em Psicologia Clínica e Psicopatologia
Membro da Titular da Associação Portuguesa de Psicoterapia Psicanalítica e Psicanálise
Membro da Associação EMDR Portugal
Membro da British Society of Clinical Hypnosis
 Psicóloga Especialista em Avaliação Psicológica na Ktree 

2014-04-02
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