O verdadeiro segredo de uma velhice bem vivida é preparar-se para a mesma

Pensar no envelhecimento é por norma desagradável e a grande maioria de nós evita fazê-lo. Mas sermos capazes de reconhecer os primeiros sinais de envelhecimento e agirmos no sentido de tomar medidas preventivas é determinante para vivermos uma velhice com qualidade.

Depois dos 55 anos a velhice espreita e a única forma sensata de a viver é preparar-se sem receios e consciente de que está a entrar numa nova fase da vida que tem quase tanto de bom como de mau. O envelhecimento activo é precisamente o conjunto de atitudes e acções que podemos ter no sentido de prevenir ou adiar as dificuldades que envelhecer inevitavelmente acarreta.

A qualidade de vida que um sénior pode alcançar é o principal factor a ter em consideração quando pensamos em envelhecimento. Durante muitos anos a grande preocupação da investigação médica foi a longevidade. O esforço dos cientistas organizava-se, e ainda se organiza, em torno do desejo de viver o maior número de anos possível. Hoje, para além da preocupação com a longevidade, há cada vez mais a preocupação com a qualidade de vida; e não se trata só da ausência de doenças físicas que causam mal-estar, mas sobretudo de qualidade de vida em termos de bem-estar psíquico.

Bem-estar físico e intelectual

As alterações físicas e intelectuais que ocorrem com o envelhecimento variam de pessoa para pessoa e são extremamente influenciadas pelas características genéticas e o estilo de vida adoptado. Ao nível físico é necessário ter em conta a importância de uma alimentação adequada e a prática regular de exercício físico. Deve-se ter cuidados especiais com a exposição ao sol (que deve ser moderada), a hidratação e o repouso. É fundamental ter cuidado com o corpo, mas também nos devemos preocupar com a mente e o bem-estar psicológico – tão importante quanto o bem-estar físico. Não basta sentirmo-nos bem fisicamente para aproveitarmos a vida com tudo o que de bom esta tem para nos oferecer. Termos as nossas faculdades mentais intactas e alerta, prontas para responder a qualquer solicitação, faz-nos sentir competentes e activos. Manter-se intelectualmente activo é uma das chaves de ouro do envelhecimento activo. As funções cognitivas (atenção, memória, raciocínio, etc.) desenvolvem-se e fortalecem se tiverem sido devidamente estimuladas e definham se deixarem de ser cuidadosamente incentivadas. As funções cognitivas são como plantas que precisam de cuidados permanentes para se desenvolverem e manterem de boa saúde. Como estimular a suas funções cognitivas? Pode fazê-lo de inúmeras formas. Em primeiro lugar, nunca deixe de ler. Diversos estudos mostram que à medida que as pessoas envelhecem tendem a perder hábitos de leitura ou a lerem fundamentalmente artigos pouco exigentes a nível intelectual. Ganhe hábitos de leitura cedo na vida e nunca os perca. Não se deixe cair na tentação de ler apenas revistas na sala de espera dos consultórios, as letras gordas dos jornais ou as legendas na televisão. Leia romances, de ficção ou históricos; leia sobre política; leia jornais e acompanhe os conflitos. Pense e reflicta sobre o mundo à sua volta. Não fique intelectualmente parado. Tome posições. Crie argumentos e defenda-os. Participe em debates. Ouça a opinião dos outros e reflicta sobre a mesma. Critique-se e critique os outros de forma positiva e construtiva. Faça jogos intelectuais. Tente resolver problemas. Puxe por si. Tente sempre ir mais longe. Faça palavras cruzadas; charadas; exercício intelectual. Leia em voz alta. Faça o máximo de contas sem recorrer à calculadora. Faça jogos de palavras para alargar o seu vocabulário. Escreva. Divirta-se usando o seu cérebro. 

Motivação

No envelhecimento activo há três áreas que temos de ter em consideração: a biológica, intelectual e emocional.

A motivação é o calcanhar de Aquiles do envelhecimento activo e de quase tudo o que nos propomos fazer com a nossa vida. É complicado encontrar motivação e é muito difícil mantê-la por longos períodos de tempo. Por detrás dos problemas de motivação estão muitas vezes problemas emocionais do tipo depressivo ou ansioso. A depressão gera sérias dificuldades para manter a motivação, e a ansiedade leva à fuga e ao desinteresse precipitado. Outro problema sério da motivação surge quando esta é do tipo obsessiva, isto é, demasiado rígida, focalizada e sem sentido crítico. A motivação obsessiva gera stresse e degrada o bem-estar psíquico.

Então, o que fazer quando o problema é em primeiro lugar emocional? Não há receitas milagrosas. São muitos os livros de auto-ajuda, mas a esmagadora maioria é insuficiente para promover uma verdadeira mudança. A solução está na psicoterapia preventiva. Com o psicólogo, a motivação ou falta dela pode ser minuciosamente analisada e a pessoa pode ir descobrindo, através de conversas estimulantes, os seus verdadeiros interesses e os motivos que o impedem de ser mais feliz. Numa relação psicoterapêutica reconstruímos a complexa teia das nossas relações afectivas e, conjuntamente com o psicoterapeuta, “desatamos os nós” que se foram formando pelo caminho. Quando nos oferecemos um espaço (a consulta de psicoterapia) para estarmos em contacto connosco próprios e sermos verdadeiramente escutados, podemos crescer emocionalmente e sentirmo-nos melhor preparados para lidar com o envelhecimento. Quando estamos preparados emocionalmente sentimo-nos mais fortes e capazes de enfrentar as duras provas que o envelhecimento biológico nos coloca. 

Faça frente à velhice


Ana Almeida
Directora clínica da Psicronos
Psicóloga clínica
Psicoterapeuta


2013-05-22
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