Depressão e Melancolia
Depressão e Melancolia

Já me têm perguntado qual a diferença entre depressão e melancolia, e como se pode distinguir uma da outra. Não é fácil.

A melancolia pode ser vista como uma depressão agravada, em que o sujeito se retrai de tal modo para dentro de si próprio que se desinteressa completamente do mundo e das pessoas à sua volta. A auto-recriminação constante também é um sinal importante, e que muitas vezes não existe na depressão, pelo menos na mais moderada. Os psiquiatras usam determinados critérios para distinuguir uma da outra, que constam do DSM. Também é importante ter em atenção se há ciclotimia, ou seja, oscilações de humor muito marcadas, com picos de euforia e baixos com carácter mais melancólico.

A melancolia pode ser uma patologia grave, às vezes até resultando em suicídio. O sujeito, que investiu afectivamente num objecto (pode ter sido uma pessoa, ou mesmo um ideal), incorporou-o e deixou que o objeto se apossasse de parte do seu self. Se o objeto desaparece ou se torna por qualquer razão insatisfatório, dá-se um fenómeno estranho: todo o investimento emocional é retirado do objeto e reflui sobre o próprio sujeito, que se odeia e se recrimina constantemente, considerando que nada vale e que é merecedor de todas as desgraças. Verifica-se também um estado de grande apatia e de desinteresse pela vida e pelos outros. O sujeito como que se fecha sobre si próprio.

 Julgo que mais importante que distinguir uma da outra é perceber se estes estados mais ou menos depressivos podem estar ligados a uma causa determinada (uma morte, uma perda amorosa, uma situação de desemprego, por exemplo) ou se são endógenos, isto é, parecem nascer de dentro da própria pessoa. Se for o caso, o psicoterapeuta ou psicanalista terá de trabalhar com a pessoa as perdas na infância mais precoce. Às vezes "apenas" uma grande desilusão com uma pessoa muito próxima, que deixou uma marca psíquica de perda de afecto, ou do perigo dela, pode reavivar o contacto com a dor dessas perdas na actualidade. Acontece que aquilo que pode ter sido apenas uma contrariedade para uma pessoa, pode ter constituído um enorme desgosto para outra. Cada caso é um caso e a mente humana é de facto um abismo.

 


Clara Pracana
Doutorada em Psicologia
Mestre em Psicologia Clínica e Psicopatologia
Membro Titular do ramo de Psicanalise da AP
Membro Titular do Ramo de Psicoterapia Psicanalítica da AP
Sócia da Sociedade Portuguesa de Psicanálise
Psicoterapeuta - Psicoterapia Psicanalítica
Consultora - larga experiência em gestão de empresas 

2014-05-04
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