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Ansiolíticos e Anti-Depressivos ou Conversa?


Clara Pracana

Doutorada em Psicologia Aplicada
Psicoterapeuta e Counsellor na PSICRONOS
Consultora

clara.pracana@psicronos.pt

É assim, muitas vezes, que a questão se põe. A pessoa sente um mal-estar que se arrasta há anos, tem crises de ansiedade cuja origem às vezes nem percebe bem, sente-se em baixo, com falta de gosto pela vida, irrita-se com as mínimas coisas. Por vezes o tema vem à baila numa ida ao médico de clínica geral. Ou numa conversa com uma amiga. Tomar comprimidos, fazer psicoterapia? Qual a diferença? Como é a psicoterapia? E os comprimidos, têm que efeitos secundários?

O período que atravessamos, no nosso país e não só, não ajuda. Todos os dias há más notícias. Ouvir o telejornal torna-se um suplício, a somar às dificuldades quotidianas no emprego e em casa. As contas para pagar, essas, não faltam à chamada. O ambiente é contagiosamente deprimente e ninguém está imune.

E é nesta situação de mal-estar e preocupação que uma pessoa vai ao médico, já um pouco em desespero. Às vezes com sintomas desagradáveis: insónia, problemas de intestinos, eczemas, dores de garganta. Cansaço.

Há que dizer, desde já, que não existe incompabilidade entre a psicoterapia e a medicamentação. Casos há em que os níveis de ansiedade da pessoa requerem um tratamento com ansiolíticos, por forma a que o tratamento psicoterapêutico possa ter lugar. Mas pode suceder, mais tarde, que o próprio paciente, ao fim de uns meses de psicoterapia decida, em conjunto com o médico, retirar a medicamentação. Não há uma regra. Aqui impera o bom-senso, a liberdade de cada um e sobretudo o interesse do paciente/cliente.

Não gosto da palavra "paciente", que soa a doença, a passividade, quando não tem de ser assim. Em psicanálise usamos a expressão "analisando", mas mesmo ela tem ressonâncias de passividade, quando o que se pretende com a psicanálise, ou com a psicoterapia é exactamente o contrário.

Eu explico: eu quero que os meus clientes, as pessoas a quem sigo em psicoterapia, ganhem AUTONOMIA e LIBERDADE. Quero que ganhem gosto pela vida, que sintam capazes de fazer aquilo que gostam. Que saibam o que querem para si próprios.

Não quero adultos infantilizados, nem pessoas que dependam das minhas palavras. Gosto de clientes que discutam, que se confrontem com as questões e pensem pela sua cabeça. O psicoterapeuta é um co-pensador, uma outra pessoa que, por ser neutra, facilita a abordagem dos problemas, a elaboração de um ou vários pensamentos sobre uma mesma questão. É um facilitador, uma espécie de catalisador de pensamentos. É esta a base ética da famosa "conversa", em que às vezes parece que nada acontece. Mas acontece. Ou melhor, vai acontecendo. Dentro das pessoas. Não há em geral fanfarras, nem epifanias. Há transformação. Subtil mas sólida. Sustentável, como agora se diz.

Por outro lado, é na relação livre e adulta com o(a) psicoterapeuta que a pessoa vai experimentando, quase ensaiando, passo a passo, a coreografia da vida que é para ser vivida cá fora. "Conhece-te a ti próprio", dizia o filósofo Sócrates, que ao longo da sua vida terá posto muitas pessoas a pensar, segundo dizem os contemporâneos.

Era um conselho muito bom. Já pensaram: como posso eu pensar e tomar decisões, relacionar-me com os outros, se tenho um(a) desconhecido(a) dentro de mim? E que às vezes até me é hostil?

Lisboa, 9 de Outubro de 2011
Palavras-chave: mal-estar, depressão, ansiedade, insónia, passividade, psicoterapia, psicologia, pensamento, liberdade.


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